Ré condenada tenta provar colaboração informal na Lava Jato

Ex-contadora de doleiro, Meire Poza anexou diálogos de WhatsApp que indicam acesso a bastidores da operação

Wálter Nunes

SÃO PAULO

A contadora Meire Poza, condenada na Lava Jato por lavagem de dinheiro, protocolou na Justiça documentos que comprovariam que ela era uma espécie de informante da Polícia Federal sobre outros acusados e que tinha acesso a informações sigilosas da operação.

O fato de ser uma colaboradora informal, sem ter assinado acordo de delação, pode levar a questionamentos sobre a legalidade da sua atuação e das provas obtidas com sua ajuda, segundo advogados.

Meire assessorou o doleiro Alberto Youssef antes de ele ser preso e foi denunciada por viabilizar o repasse de R$ 2,3 milhões em propina ao ex-deputado André Vargas.

Vargas usou sua influência para que a Caixa Econômica Federal contratasse uma empresa ligada a Youssef.

Em agosto, o juiz federal Sergio Moro, futuro ministro da Justiça do governo Jair Bolsonaro, condenou Meire a 2 anos e 3 meses de prestação de serviços comunitários e multa. O juiz levou em conta a colaboração da contadora como atenuante.

A Procuradoria, porém, recorreu da decisão pedindo o endurecimento da pena e colocou em dúvida a efetividade da ajuda da contadora.

A defesa de Meire juntou aos autos as conversas que ela mantinha no celular com os delegados Márcio Anselmo e Eduardo Mauat, os agentes federais Rodrigo Prado Pereira e outro identificado apenas como “Gabriel PF” e o procurador da República Andrey Borges, todos com atuação na Lava Jato.

Nas mensagens, Anselmo surge como um dos principais interlocutores. Ele solicitava informações sobre empresas e personagens ligados a Youssef. Pelo WhatsApp ela fornecia dados como registros de transferências entre empresas e até o modelo do carro de uma amante do doleiro.

Meire também recebia no celular informações dos bastidores da operação.

Em 1º de julho de 2014, dia em que foi deflagrada a 5ª fase da Lava Jato, a contadora recebeu uma foto de João Procópio Almeida Prado, ex-funcionário de Youssef, cabisbaixo, num gabinete vazio. O lugar é semelhante às salas da Superintendência da PF do Paraná. Procópio foi preso naquela data.

No dia seguinte, ela recebeu uma fotografia tirada de dentro de um carro da PF em que Procópio está no banco traseiro.

Anselmo também comentou com ela o sucesso da operação de 19 de junho de 2015, quando a Lava Jato prendeu Marcelo Odebrecht e os executivos da empreiteira baiana. “Gostou”?, pergunta o delegado via WhatsApp. “Ficamos na sede da empresa até 10 da noite. Kkkk”, diz ele. A mensagem chegou a Meire às 22h24.

O delegado contou quais policiais haviam participado das buscas na sede da companhia, em São Paulo. “Eu mauat milhomen prado gabriel”. Eram o delegado Eduardo Mauat e os agentes Luiz Carlos Milhomen, Rodrigo Prado e Gabriel.

“Genteeeee era essa equipe que eu queria que me prendesse”, responde Meire. “Marcio to esperando o JD!!! Essa vai ser a melhor!!!”, diz ela. Quarenta e cinco dias depois o ex-ministro José Dirceu foi preso.

Nas mensagens, a contadora dizia temer ser alvo de uma ação da Lava Jato, apesar da colaboração. Para Anselmo, ela diz que o relator da CPMI (Comissão Parlamentar Mista de Inquérito) da Petrobras, deputado federal Marco Maia (PT-RS), havia pedido seu indiciamento. “O que quer dizer?? Vai para a PF?? Como é Isso??”, perguntou Meire.

“Eu acho que vão cagar para o relatório dele. A CPI foi uma piada. Acho que esse relatório vai para a gaveta”, diz Anselmo. “Tomara. De qualquer jeito, eu ainda acho que vou ser denunciada em algum momento”, diz ela. Márcio Anselmo procura tranquilizar a contadora. “Eu peço seu perdão judicial”, escreveu.

Meire também conversou com o procurador Andrey Borges sobre não se sentir reconhecida por colaborar com a investigação.

“Sei que sua visão é de não reconhecimento e tudo que você disse é compreensível. Mas seu lugar na história está reservado, como quem ousou enfrentar e mudar, mesmo tendo que pagar um alto preço por isto”, diz ele.

Os registros dessas conversas foram impressos e autenticados no 1º Tabelionato de Notas de Curitiba, em 19 de setembro de 2017. Os documentos foram juntados ao processo em 22 de outubro deste ano, após o Ministério Público pedir à segunda instância o endurecimento da pena.

A participação informal de Meire na investigação foi motivo de questionamento da defesa de vários réus da Lava Jato, como André Vargas e o ex-presidente Fernando Collor. Entre advogados, há a tese de que a colaboração informal de uma investigada, sem que seja formalizada em acordo de delação, é irregular e pode anular a investigação.

Eles usam como exemplo a Operação Satiagraha, que prendeu o banqueiro Daniel Dantas, acusado de crimes financeiros. A investigação foi anulada no Supremo Tribunal Federal porque ministros consideraram que a participação informal de agentes da Abin na investigação era ilegal.

COLABORAÇÃO NUNCA SE CONCRETIZOU, DIZ PROCURADOR

O procurador Andrey Borges diz que Meire o procurou quando “não se sabia ainda do envolvimento dela em ilícitos” e ela desabafou sobre seu papel como testemunha. “Sequer pode-se qualificar essas conversas como uma ‘colaboração informal’, como vem tentando fazer a defesa da ora acusada”.

O advogado Bernardo Fenelon, que defende Meire Poza, diz que sua cliente colaborou com as autoridades e que “os benefícios legais de redução de pena estão corretos e são irretocáveis”.

A PF não comentou.

 

Fonte: Folha de São Paulo

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